quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Sobre o passado

Não conheço ninguém que tenha entusiasmo com a idéia do Céu. Até mesmo os mais piedosos não querem deixar este mundo e fazem a maior força para adiar o momento da partida para o prometido lugar de delícias. Preferem ficar um pouco mais, a despeito da artrite, da úlcera, da surdez, da dentadura, da urina solta. E certos estão, pois nada melhor se pode desejar que esta terra maravilhosa, com seus perigos e amenidades. Lembro-me de Dona Clara, mulher mais sábia não conheci que cuidava da horta como de um namorado, e fazia isto louvando a Deus, sem nunca ser chata. Já velhinha, cega, na cama, sua filha lhe lia as Sagradas Escrituras, mas parece que ela não ouvia, pois a interrompeu: Minha filha a hora esta chegando. Que pena! Este mundo é tão bonito…
Cecília Meireles, mística, criatura de um outro mundo, conforme testemunho próprio e confirmação do Drummond, dizia que ficava a imaginar se, depois de muito navegar a um outro mundo enfim se chega. E tremia de medo que isso pudesse acontecer: O que será, talvez,até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas, mas apenas sobre humanas companhias…
Consultei a Adélia Prado, para ver se a teologia dela era de diferente opinião. E o que eu encontrei foi isso: Se o que está prometido é a carne incorruptível, é isso mesmo que eu quero, mais o Sol numa tarde com tanajuras, o vestido amarelo com desenhos semelhante ao dos urubus e, imprescindível, multiplicado ao infinito, o momento em que palavra alguma serviu à perturbação do amor Assim quero “venha a nós o vosso reino”… Consultei o texto
dos graves doutores nas coisas divinas, e em nenhum deles pude encontrar referências a um céu com tanajuras, vestidos amarelos e momentos de amor carnal. Mandei os tais livros de presente para os meus inimigos e guardei o poema da Adélia.
E até mesmo Nietzsche pensou que seria bom que esta vida, com todas as suas dores e sofrimentos, não acabasse nunca, e que o universo fosse um cânon infinito, em que esta vida se repetisse eternamente. Ele imaginava que cada momento deveria ser eterno, e a única forma de se conseguir isto era fazer com que o tempo fosse uma ciranda, e tudo voltasse ao princípio e começasse de novo, do jeitinho mesmo que foi.

Concordo. E até estou pensando em fundar uma nova religião, pois religião é isto, acreditar que a imaginação é forte… Desta religião a coisa mais importante será a doutrina da reencarnação – pois é isso que a reencarnação diz, que o corpo é como a Fênix, ressuscita sempre das cinzas. Só que a reencarnação daminha religião é diferente daquela que anda pra frente. O que eu quero mesmo é voltar pra trás.
Andei lendo coisas espantosas da Física moderna. Pois, se entendi o que li, existe um outro tempo, diferente deste do dia a dia, rio que nasce no passa do e vai levando a nossa canoa para o futuro. Este outro tempo nasce no futuro e vai navegando para o passado…
Alegrei-me ao saber de coisa tão maravilhosa. Pois o que o meu coração deseja não é navegar para o futuro. O futuro é desconhecido. E por mais que dê asas à minha imaginação, não consigo amar o que não conheço. Pode ser que ali se encontrem as coisas mais maravilhosas – mas como eu nunca as tive, não posso amá-las. Não sinto saudades delas. A saudade é um buraco na alma que se abriu quando um pedaço nos foi arrancado. No buraco da saudade mora a memória daquilo que amamos, tivemos e perdemos: presença de uma ausência. Oh! metade arrancada de mim!, diz o Chico. Minha alma é um queijo suíço. E o que a saudade deseja não é uma coisa nova. É o retorno da coisa velha, perdida. Saudade é o revés do parto. É arrumar o quarto para o filho
que já morreu… E inútil consolar a mãe, diante do filho morto, dizendo que ela poderá ter outro um filho mais bonito e mais inteligente. O que a mãe deseja é aquele filho burrinho e feio pois é ele que ela ama.
D. Miguel de Unamuno tem um livro lindíssimo com o título Paisagens da Alma. As paisagens da alma são feitas de cenários que não mais existem, e que a saudade eternizou. Aquilo que o coração ama fica eterno.
Não, não quero ir nem para o Céu e nem para frente. Quero mesmo é voltar para os lugares do passado que amei. Quero voltar para casa…
Quero o gemido do monjolo de minha infância e suas pancadas tristes, noite adentro. Quero as madrugadas pelos campos cobertos de capim gordura, o borbulhar dos regatos escondidos no mato, o barulho dos cascos dos cavalos no chão, misturado ao cheiro divino do seu suor. Quero as jabuticabeiras floridas e suas abelhas. Quero as estórias de almas do outro mundo, contadas à sombra das paineiras. Quero o barulho das goteiras nas panelas, caindo dentro de casa. Quero o apito rouco do trem de ferro, que vive apitando dentro do meu corpo.

Quero um canarinho da terra, cabecinha de fogo, no galho da laranjeira. Quero o cheiro dos cadernos, livros e borrachas, no primeiro dia de aula, no grupo. Quero me assentar no rabo do fogão de lenha e ficar vendo o fogo. Quero assistir a fita em série, no CinemaParadiso.Quero molhar os pés na enxurrada…
Se eu fosse escrever uma teologia sobre a felicidade futura, seria isto que eu escreveria: uma poesia sobre a felicidade passada… Para isso rezo toda noite: Senhor do Tempo põe a
minha canoa no rio do passado, pois só assim
haverá uma cura para a minha saudade…

Rubem Alves

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